Jovem goiana é a 1ª quilombola aprovada como diplomata no Brasil

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A jovem goiana Helen Jaine Gomes Borgens entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Aos 25 anos, a egressa de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG) conquistou uma vaga no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD), seleção que abre as portas do Instituto Rio Branco, responsável pela formação dos diplomatas brasileiros.

Nascida em Goiânia, Helen cresceu na comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no Nordeste goiano. Foi longe dos grandes centros de preparação para concursos que ela construiu o caminho até uma das carreiras mais concorridas do país. A aprovação ocorreu em maio de 2026, e sua trajetória ganhou destaque nacional em outubro, após uma reportagem publicada pelo Jornal UFG.

Uma infância no quilombo e uma avó que virou inspiração

A história de Helen começa na comunidade do Retiro, onde passou a infância perto dos familiares, da natureza e das tradições locais. A convivência com a terra e com a família ajudou a formar a identidade que hoje ela pretende levar para a diplomacia brasileira.

Uma das maiores referências de sua vida é a avó Brasilina Duques Borges, conhecida como Dona Miúda. Foi ela quem incentivou os estudos dentro da família e se esforçou para que os filhos chegassem ao ensino superior.

Helen contou à UFG que estuda também em homenagem à avó, uma mulher que, na avaliação da neta, poderia ter alcançado grandes conquistas acadêmicas se tivesse recebido as mesmas oportunidades.

A valorização da educação atravessou gerações e se tornou parte fundamental da trajetória da jovem.

O sonho de ser diplomata quase ficou pelo caminho

O primeiro incentivo para seguir a carreira diplomática surgiu em 2017, quando Helen frequentava um cursinho preparatório para o Enem. Um professor de História apresentou a possibilidade, mas, naquele momento, trabalhar no Itamaraty parecia uma realidade muito distante.

Anos depois, ela ingressou no curso de Relações Internacionais da UFG. Mesmo dentro da universidade, a dúvida continuou. Helen chegou a pensar em abandonar a graduação e procurar outro caminho.

Foi a mãe quem pediu que ela insistisse por mais um semestre. A decisão acabou sendo determinante.

Durante esse período, uma disciplina de Política Externa Brasileira reacendeu o interesse pela diplomacia e ajudou Helen a enxergar novamente a profissão como um objetivo possível.

Helen Jaine Gomes Borgens, com sua família. Jovem goiana é a primeira quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Foto: Arquivo pessoal/Jornal UFG.

A universidade também proporcionou uma visita ao Itamaraty, experiência que aproximou a estudante da rotina e das possibilidades da carreira.

A trajetória de Helen se soma a outras conquistas históricas ligadas à instituição. O Curta Mais já contou, por exemplo, a história do primeiro professor indígena empossado pela UFG, outro marco de representatividade na educação superior goiana.

Estudando inglês sozinha no interior de Goiás

Concluir a faculdade era apenas parte do desafio. O Concurso de Admissão à Carreira Diplomática exige conhecimentos aprofundados em português, história, geografia, economia, direito, política internacional e idiomas estrangeiros.

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Helen Jaine Gomes Borgens, jovem goiana é a primeira quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Foto: Arquivo pessoal/Jornal UFG.

Helen Jaine Gomes Borgens, jovem goiana é a primeira quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Foto: Arquivo pessoal/Jornal UFG.

imolândia, Helen não tinha a mesma oferta de professores especializados e cursos preparatórios encontrada nas grandes cidades.

O inglês, por exemplo, precisou ser estudado em grande parte por conta própria. Ela também buscou materiais e formas de aprofundar os conhecimentos exigidos pela seleção.

Helen Jaine Gomes Borgens, com sua família. Jovem goiana é a primeira quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Foto: Arquivo pessoal/Jornal UFG.

Helen Jaine Gomes Borgens, com sua família. Jovem goiana é a primeira quilombola aprovada no concurso para diplomata no Brasil. Foto: Arquivo pessoal/Jornal UFG.

Em 2025, depois de concluir a graduação, voltou para Simolândia e intensificou a preparação para o concurso.

O período foi marcado por dificuldades, insegurança e episódios de ansiedade. Ainda assim, Helen continuou estudando.

A dedicação chamou a atenção dos professores que acompanharam sua formação. Ao Jornal UFG, Diego Magalhães, coordenador do curso de Relações Internacionais, destacou o comprometimento acadêmico e a iniciativa da ex-aluna em buscar orientação e aprofundar seus conhecimentos.

Uma conquista inédita na diplomacia brasileira

A aprovação de Helen também representa um marco nas políticas de acesso à carreira diplomática.

O concurso de 2026 foi o primeiro a reservar vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Das 60 vagas oferecidas, duas foram destinadas a candidatos indígenas e uma a candidatos quilombolas.

Foi justamente essa vaga que Helen conquistou.

O concurso é realizado pelo Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. Após a aprovação, os selecionados passam pela formação necessária para iniciar a carreira, cuja primeira classe é a de terceiro-secretário.

Mais do que conquistar estabilidade profissional, Helen vê na aprovação a possibilidade de ampliar a presença de comunidades historicamente pouco representadas em espaços de decisão.

Para ela, ocupar esse lugar significa mostrar a outras crianças e jovens quilombolas que a carreira diplomática também pode fazer parte de seus sonhos.

De Simolândia para o mundo

Com a aprovação, Helen se prepara para uma nova etapa no Instituto Rio Branco. O sonho, agora, é construir uma trajetória sólida no serviço diplomático brasileiro.

Ela não esconde que gostaria de chegar, um dia, ao posto de embaixadora. Mas sua prioridade, conforme relatou à UFG, é ser uma boa profissional e representar um Brasil que nem sempre encontra espaço nos ambientes de maior prestígio institucional.

A conquista coloca o nome de Simolândia e da comunidade quilombola do Retiro em uma história de alcance nacional.

E deixa uma mensagem que vai muito além de um concurso público: talento e dedicação existem em todas as regiões do país, mesmo onde o acesso às oportunidades ainda é desigual.

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