Presidente do Paraguai renunciou após crise envolvendo banco. (Foto: José Cruz/EBC)
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo, em meio a uma grave crise política e financeira provocada pelo colapso do banco digital Ueno Bank. A decisão foi comunicada em vídeo publicado nas redes sociais, enquanto o Congresso paraguaio se preparava para discutir um processo de impeachment contra o chefe do Executivo.
Peña afirmou que decidiu deixar a Presidência em nome da estabilidade do país, da paz social e da preservação das instituições democráticas. Na mensagem, também pediu desculpas à população por eventuais falhas durante sua administração, mas não assumiu responsabilidade direta pelas irregularidades atribuídas à instituição financeira.
“Peço desculpas ao povo se falhei em algum momento”, declarou o presidente, ao afirmar que sua prioridade é garantir que os clientes do banco recuperem os recursos depositados.
A renúncia ocorreu depois que Peña perdeu sustentação política, inclusive entre integrantes do Partido Colorado, legenda que governa o Paraguai há décadas. O ex-presidente Horacio Cartes, principal liderança da sigla, havia retirado seu apoio ao governo, ampliando o isolamento do mandatário.
O vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto para assumir o comando do Executivo e concluir o atual mandato, conforme estabelece a Constituição paraguaia. A formalização da sucessão depende dos procedimentos institucionais no Congresso.
Crise bancária provocou reação nas ruas
O estopim da crise foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, instituição que cresceu rapidamente nos últimos anos e chegou a reunir aproximadamente 3 milhões de clientes.
A autoridade monetária identificou problemas na situação patrimonial do banco, incluindo operações de crédito consideradas irregulares e empréstimos concedidos a empresas relacionadas aos controladores da instituição. Após a revisão dos balanços, o capital do banco ficou abaixo da metade do mínimo exigido pela legislação.
A instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos de fundos previdenciários e de órgãos estatais. A intervenção deixou milhões de clientes sem acesso às próprias contas, provocando filas em agências, instabilidade em outros aplicativos bancários e manifestações em Assunção.
A situação ganhou dimensão política porque Peña manteve participação societária no grupo controlador do Ueno Bank até março de 2025. A relação comercial do presidente com os proprietários da instituição passou a ser um dos principais pontos de questionamento da oposição.
O Ministério Público determinou a prisão de oito executivos ligados ao banco e apresentou acusações contra 27 pessoas relacionadas à instituição e a seus negócios. As investigações apuram possíveis irregularidades financeiras e responsabilidades na condução da empresa.
Impeachment e perda de apoio político
Antes do anúncio da renúncia, 35 deputados da oposição haviam apresentado um pedido de impeachment contra Peña e solicitado a convocação de uma sessão extraordinária para discutir o afastamento.
Entre as acusações estavam possíveis conflitos de interesse, utilização irregular de recursos previdenciários e omissão de autoridades diante dos problemas identificados no banco.
A crise também atingiu o Banco Central. Carlos Carvallo, que presidia a instituição monetária e havia comandado a financeira que antecedeu o Ueno Bank, deixou o cargo a pedido de Peña.
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