A menos de três semanas das eleições de 4 de outubro, Catalão entra na reta decisiva de uma disputa por deputado estadual que ultrapassa os limites da escolha de representantes para a Assembleia Legislativa de Goiás. Em 2026, a eleição ganhou contornos de uma verdadeira medição de forças políticas e poderá contribuir para definir quem sairá fortalecido na reorganização política do município nos próximos anos.
Três candidaturas concentram as atenções do eleitorado catalano: Jamil Calife (Progressistas), número 11000, candidato à reeleição; Gustavo Sebba (PSDB), número 45222, que busca o quarto mandato consecutivo; e Adib Elias Júnior (MDB), número 15111, ex-prefeito de Catalão que retorna à disputa por uma cadeira na Assembleia. Os três candidatos estão com os registros deferidos pela Justiça Eleitoral.
A configuração chama atenção também pelo histórico recente. Em 2022, Catalão conseguiu eleger dois deputados estaduais. Jamil Calife recebeu 38.248 votos em todo o Estado, sendo 19.183 em Catalão. Gustavo Sebba alcançou 27.973 votos em Goiás, com 9.468 votos no município.
Naquele momento, os números demonstraram a capacidade de Catalão de sustentar simultaneamente duas representações na Assembleia. Quatro anos depois, entretanto, o cenário político apresenta novas alianças, rupturas e estratégias eleitorais.
DA ALIANÇA À DISPUTA DIRETA
Jamil Calife chegou à Assembleia Legislativa em 2022 impulsionado pelo grupo político então comandado pelo prefeito Adib Elias Júnior. O cenário, porém, mudou radicalmente.
O rompimento entre Adib Elias Júnior e o atual prefeito Velomar Rios redesenhou o campo político de Catalão e colocou antigos aliados em lados opostos. Velomar declarou apoio à candidatura de Jamil à reeleição, enquanto Adib decidiu construir uma candidatura própria ao Legislativo estadual.
Segundo declarações de Velomar, havia anteriormente um entendimento dentro do grupo político para apoiar Jamil em 2026. A versão passou a ser contestada no ambiente político após a ruptura entre as principais lideranças.
O desdobramento foi uma divisão que alcançou vereadores, lideranças, antigos aliados e diferentes segmentos que, durante anos, estiveram reunidos em torno de um mesmo projeto político.
JAMIL AMPLIA A BASE ALÉM DE CATALÃO
Jamil chega à reta final da campanha com uma estrutura eleitoral que vai além de sua principal base, Catalão, onde a expectativa é de que possa alcançar uma votação superior à registrada em 2022. Naquele pleito, o deputado obteve 19.183 votos em Catalão, resultado que representou aproximadamente metade de sua votação estadual. Para 2026, entretanto, a estratégia é combinar a manutenção de sua força no município com uma expansão mais ampla de sua presença eleitoral pelo Estado.
O candidato conta com apoio formalizado em mais de 100 municípios goianos e reúne, entre seus principais aliados, 19 gestores municipais que declararam apoio à sua campanha. Entre os prefeitos que integram essa articulação estão Anderson Silva, de Quirinópolis; Eudes Araújo, de Novo Planalto; João Pimenta de Pádua Júnior, de Nova Aurora; Wisner Araújo, de Corumbaíba; e Haroldinho Calaça Coelho, de Três Ranchos, além de outras lideranças municipais que passaram a compor sua base de apoio.
A candidatura também ampliou sua rede de articulação nos maiores centros eleitorais de Goiás, com apoiadores em Aparecida de Goiânia, Goiânia, Anápolis e em inúmeras outras cidades goianas.
Essa capilaridade representa uma diferença importante em relação ao cenário de 2022. Se naquele momento Catalão foi responsável por parcela expressiva de sua votação, agora Jamil procura transformar a estrutura política construída em diferentes regiões do Estado em uma votação mais distribuída.
Sua campanha procura ainda associar a continuidade do mandato à ampliação de investimentos e ações para Catalão e o Sudeste Goiano. Entre as principais bandeiras está a duplicação da GO-330 entre Catalão e Ipameri, obra considerada estratégica para infraestrutura, logística e desenvolvimento regional.
A força da base municipal permanece, portanto, como um dos principais ativos do candidato à reeleição, mas a expansão territorial pode representar um componente decisivo para seu desempenho estadual.
Em uma eleição proporcional, ampliar a votação fora do município de origem significa reduzir a dependência de uma única base e aumentar a capacidade de composição de uma votação estadual competitiva.
ADIB BUSCA A HISTÓRIA POLÍTICA
Do outro lado da disputa está Adib Elias Júnior, candidato que possui uma trajetória política construída ao longo de décadas. Médico e ex-prefeito de Catalão por quatro mandatos, Adib carrega experiência tanto no Executivo Municipal quanto no Legislativo Estadual. Já exerceu mandato na Assembleia Legislativa em diferentes períodos e foi eleito deputado estadual em 1998 e novamente em 2014, além de ter passado pela Casa na década de 1990.
Em diferentes momentos, deixou o Legislativo para assumir a Prefeitura de Catalão. Sua candidatura em 2026 apresenta, portanto, uma característica própria: transformar novamente sua experiência e seu patrimônio político municipal em uma candidatura competitiva para o Legislativo estadual.
O principal desafio é medir quanto de sua força eleitoral permanece após a ruptura com parte do grupo político que esteve ao seu lado durante anos. A campanha também colocou Adib como um dos principais polos de oposição ao grupo atualmente instalado na Prefeitura. A mudança representa uma das maiores alterações no cenário político catalano dos últimos anos.
Cada adesão, manifestação pública ou movimento de liderança passou a ganhar significado que vai além da eleição para deputado estadual, sendo interpretado também como sinal do futuro equilíbrio político do município.
GUSTAVO SEBBA: UM TERCEIRO POLO
Em meio à polarização entre Jamil e Adib, Gustavo Sebba ocupa uma posição diferente. Sua candidatura não nasceu da atual ruptura política que divide o grupo ligado à Prefeitura. Com trajetória própria no PSDB, Gustavo está em seu terceiro mandato consecutivo na Assembleia Legislativa. Foi eleito pela primeira vez em 2014, reeleito em 2018 e novamente em 2022. Também preside o diretório estadual do PSDB em Goiás.
A experiência acumulada no Legislativo estadual é um dos principais ativos de sua candidatura. Outro elemento relevante está na distribuição de seus votos. Em 2022, aproximadamente um terço da votação estadual de Gustavo veio de Catalão. Sua votação apresentou maior pulverização pelo Estado, com presença em municípios como Campo Alegre de Goiás, Ipameri, Pirenópolis, Padre Bernardo e São Simão.
Essa característica representa uma vantagem estratégica: uma eventual redução de espaço eleitoral em Catalão pode ser parcialmente compensada por bases construídas fora do município.
Por outro lado, a polarização entre Jamil e Adib tende a concentrar grande parte da atenção do eleitorado catalano, obrigando Gustavo a disputar espaço político em uma eleição marcada pelo confronto entre dois nomes diretamente ligados à história recente do município.
TRÊS CANDIDATURAS, DOIS MAPAS ELEITORAIS
A comparação com 2022 ajuda a dimensionar a disputa. Naquele ano, Jamil recebeu 19.183 votos em Catalão, enquanto Gustavo Sebba alcançou 9.468. Juntos, os dois concentraram parcela expressiva dos votos destinados a deputado estadual no município.
Em 2026, entretanto, a entrada de Adib Elias acrescenta à disputa um terceiro candidato com forte identificação local e amplo conhecimento da estrutura política de Catalão.
O resultado pode produzir uma fragmentação inédita entre três nomes com significativa presença política e eleitoral no município. É importante, porém, fazer uma distinção fundamental: deputado estadual não é eleito simplesmente pela colocação obtida dentro de Catalão.
A eleição para a Assembleia Legislativa ocorre em âmbito estadual e utiliza o sistema proporcional. O desempenho dos partidos e federações, o quociente eleitoral, a votação das chapas e os votos nominais de cada candidato participam da definição das 41 cadeiras da Alego.
Por isso, liderar em Catalão representa força política e demonstra capacidade de mobilização local, mas não garante, isoladamente, a eleição. As campanhas precisam trabalhar, portanto, com dois mapas simultaneamente.
O primeiro é Catalão, onde está em disputa a liderança política e a capacidade de mobilização do eleitorado local.
O segundo é Goiás, onde efetivamente são conquistadas as cadeiras da Assembleia Legislativa.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Para Jamil Calife, a eleição representa a oportunidade de confirmar nas urnas a estrutura política atualmente organizada em torno do prefeito Velomar Rios, ampliar sua votação em Catalão e transformar a rede de apoios construída em mais de 100 municípios em uma votação estadual suficiente para garantir a continuidade de seu mandato.
Para Adib Elias, o pleito representa um teste decisivo para seu patrimônio político pessoal. Uma vitória demonstraria que sua liderança permanece competitiva mesmo após a ruptura com antigos aliados e permitiria seu retorno ao Legislativo estadual.
Para Gustavo Sebba, o desafio é demonstrar que uma carreira parlamentar consolidada e uma base eleitoral distribuída pelo Estado continuam competitivas diante de uma eleição local marcada pela polarização entre Jamil e Adib.
UMA ELEIÇÃO COM REFLEXOS EM 2028
Além da disputa pelas cadeiras da Assembleia, o resultado de outubro poderá produzir consequências para o futuro político de Catalão. Uma votação expressiva de Jamil fortalecerá politicamente o grupo comandado pelo prefeito Velomar Rios e poderá consolidar a atual estrutura política municipal.
Uma eventual eleição de Adib demonstrará que o ex-prefeito mantém uma estrutura eleitoral própria mesmo depois da ruptura e poderá recolocá-lo no centro das articulações políticas municipais.
Já uma nova reeleição de Gustavo Sebba confirmará a permanência de um terceiro polo relevante na política catalana.
Catalão poderá chegar ao fim da eleição com mais de um representante na Assembleia Legislativa, como ocorreu em 2022. Também poderá assistir a uma fragmentação das forças políticas locais que torne mais complexa a conquista de cadeiras estaduais.
Por isso, a eleição para deputado estadual ganhou dimensão estratégica no calendário político de 2026.
Mais do que escolher representantes para a Assembleia Legislativa, as urnas começarão a responder qual liderança conseguiu transformar sua estrutura política em votos e, principalmente, quem sairá fortalecido para conduzir a próxima etapa da política de Catalão.
O resultado de outubro poderá, assim, representar o primeiro grande capítulo de uma nova configuração política no município — e seus efeitos deverão ultrapassar a própria eleição de 2026, alcançando diretamente as articulações que antecederão a disputa municipal de 2028.








