Boatos sobre as Eleições 2026 voltaram a circular nas redes sociais e aplicativos de mensagens; Justiça Eleitoral mantém plataforma para esclarecer informações falsas. Foto: TRE-GO.
Às vésperas do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, informações falsas sobre o processo eleitoral voltam a circular em redes sociais, aplicativos de mensagens e até em conversas entre familiares e amigos. Algumas repetem boatos conhecidos de outros pleitos. Outras incorporam temas mais recentes, como a inteligência artificial (IA).
O problema é que nem toda informação falsa apresenta sinais evidentes de que há algo errado. Uma mensagem pode ser acompanhada por uma fotografia, utilizar termos técnicos ou até ser atribuída a alguém que supostamente trabalha na Justiça Eleitoral. Por isso, antes de compartilhar, é importante verificar a origem e confrontar o conteúdo com fontes oficiais.
A própria Justiça Eleitoral mantém a plataforma Fato ou Boato, que reúne esclarecimentos sobre informações falsas relacionadas às eleições. Em setembro, o espaço publicou checagens sobre votos brancos e nulos, inteligência artificial e supostos “candidatos secretos” na urna eletrônica.
Voto para um cargo não depende dos demais
Uma das mensagens que voltou a circular em 2026 afirma que o eleitor que votar para presidente, mas deixar em branco ou anular os votos para outros cargos, teria toda a votação anulada.
A informação é falsa. Segundo a Justiça Eleitoral, cada voto é registrado de maneira independente para cada cargo. Assim, o eleitor pode votar em um candidato à Presidência e optar por deixar em branco ou anular a escolha para deputado, senador ou governador. O voto válido para presidente continuará sendo contabilizado normalmente.
O mesmo vale no sentido contrário. Um voto válido para deputado, por exemplo, não é invalidado porque o eleitor decidiu não escolher candidato para presidente.
Nas Eleições 2026, a ordem de votação será deputado federal, deputado estadual ou distrital, primeiro senador, segundo senador, governador e presidente da República.
Votos brancos e nulos não entram na contagem dos votos válidos e não são transferidos para candidatos ou partidos. Eles são registrados para fins estatísticos.
Outro boato recorrente diz que uma eleição seria automaticamente anulada caso mais de 50% do eleitorado optasse pelo voto nulo.
A regra não funciona dessa maneira. Votos nulos escolhidos voluntariamente pelo eleitor não se confundem com a nulidade jurídica de votos ou de uma eleição determinada pela Justiça Eleitoral.
Portanto, ainda que votos brancos e nulos representem mais da metade dos votos registrados, isso, por si só, não provoca uma nova eleição. A definição do resultado considera os votos válidos.
IA pode entrar na urna e mudar o voto?
A popularização da inteligência artificial também deu origem a novas versões de boatos antigos. Uma publicação analisada pela Justiça Eleitoral sugeria que, se sistemas de IA conseguem ser utilizados em ataques digitais, poderiam também invadir as urnas eletrônicas e modificar os votos registrados. A afirmação é falsa.
A Justiça Eleitoral esclarece que as urnas não ficam conectadas à internet, Wi-Fi, Bluetooth ou à rede de telefonia celular durante a votação. Os equipamentos também não recebem atualizações ou comandos remotamente durante o pleito.
Os sistemas eleitorais são preparados previamente, passam por procedimentos de fiscalização e auditoria e são lacrados antes da votação. Depois do encerramento, cada urna imprime o Boletim de Urna (BU), que apresenta os votos registrados naquela seção e pode ser conferido por fiscais e pela população.
Isso não significa que a inteligência artificial não represente um desafio para o processo eleitoral. A tecnologia pode ser utilizada para produzir imagens, vídeos e áudios falsos com aparência realista. Esse fenômeno, porém, é diferente da alegação de que uma IA poderia acessar remotamente uma urna durante a votação e trocar o voto registrado.
“Candidatos secretos” não existem
Outro boato desmentido em setembro afirma que determinadas combinações de teclas poderiam liberar “candidatos secretos” escondidos na urna eletrônica.
A Justiça Eleitoral esclarece que não existem sequências de teclas capazes de desbloquear candidatos ou opções de voto ocultas. As informações da eleição, incluindo os nomes das candidaturas, são configuradas previamente no equipamento.
A urna permite apenas as operações previstas no sistema de votação. Segundo o TSE, segurar uma tecla numérica não produz um efeito diferente de um toque normal, e combinações como pressionar simultaneamente determinadas teclas também não ativam funções escondidas.
A relação oficial de candidaturas pode ser consultada nos canais da Justiça Eleitoral, incluindo o DivulgaCandContas.
Boato pode usar informação verdadeira
Um dos principais desafios para identificar uma informação falsa é que ela nem sempre é totalmente inventada.
Um conteúdo enganoso pode utilizar uma imagem verdadeira, mas colocá-la em outro contexto. Também pode recuperar uma notícia antiga e apresentá-la como recente, misturar informações verdadeiras com uma conclusão falsa ou utilizar dados reais para sustentar uma interpretação que não corresponde aos fatos.
Esse tipo de estratégia também aparece em conteúdos relacionados às urnas eletrônicas. Em 2026, a Justiça Eleitoral já precisou esclarecer, por exemplo, informações falsas sobre o Teste Público de Segurança, o código-fonte dos sistemas e supostas alterações nos equipamentos.
No Teste Público de Segurança realizado em 2025, foram previstos 35 planos de ataque e 29 chegaram a ser executados. Quatro apresentaram achados, mas, segundo o TSE, nenhum comprometeu a integridade, o sigilo do voto ou o resultado das eleições. As melhorias identificadas foram implementadas antes do pleito de 2026.
Da mesma forma, a abertura do código-fonte dos sistemas eleitorais não é uma novidade criada especificamente para este ano. A Justiça Eleitoral informa que o procedimento é realizado desde 2002 e que os códigos das urnas e dos sistemas eleitorais ficaram disponíveis para inspeção a partir de outubro de 2025 para as Eleições 2026.
Quando a confiança vem de quem compartilha
A desinformação eleitoral não circula apenas em redes sociais abertas. Aplicativos de mensagens, grupos de família e conversas entre amigos também podem contribuir para a disseminação de conteúdos sem comprovação.
Nesse ambiente, a confiança em quem encaminhou a mensagem pode fazer com que o conteúdo pareça mais confiável. Uma pessoa pode receber uma informação de alguém próximo, acreditar na história e repassá-la para outros contatos sem verificar a fonte original.
O problema é que a mensagem pode chegar a dezenas ou centenas de pessoas em pouco tempo, mesmo que sua origem nunca tenha sido comprovada.
Por isso, uma informação atribuída a “um mesário”, “um funcionário do TSE”, “um técnico” ou “alguém que trabalha na Justiça Eleitoral” não deve ser considerada verdadeira apenas por causa dessa identificação.
Cinco perguntas antes de compartilhar
Não é necessário ser especialista em eleições para verificar uma informação. Alguns questionamentos simples podem ajudar a interromper a circulação de um boato:
- Quem publicou?
Procure descobrir a fonte original. Quem encaminhou a mensagem pode não ser quem produziu o conteúdo. - Onde mais essa informação aparece?
Informações relevantes sobre as eleições podem ser conferidas em canais oficiais da Justiça Eleitoral e em veículos jornalísticos confiáveis. - Quando isso aconteceu?
Fotografias, vídeos e notícias antigas podem voltar a circular anos depois e ser apresentados como acontecimentos recentes. - O título ou a mensagem corresponde ao conteúdo?
Textos sensacionalistas podem apresentar uma conclusão diferente daquela sustentada pelas informações disponíveis. - Existem evidências?
Expressões como “me disseram”, “um amigo que trabalha lá contou” ou “estão escondendo isso” não substituem uma fonte verificável.
A própria plataforma Fato ou Boato recomenda atenção à fonte, à data de publicação, à autoria, ao endereço eletrônico e à confirmação da informação em outros sites.
Onde conferir informações sobre as eleições
A principal recomendação diante de uma dúvida é evitar o compartilhamento até que a informação possa ser verificada.
A Justiça Eleitoral mantém a plataforma Fato ou Boato, criada para esclarecer conteúdos falsos relacionados ao processo eleitoral e reunir verificações, orientações e materiais educativos. A iniciativa integra o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, que atualmente reúne mais de 70 instituições públicas e privadas.
O eleitor também pode consultar diretamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) para confirmar informações sobre votação, título eleitoral, candidaturas, urnas e regras do processo.
Nas Eleições 2026, o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro, das 8h às 17h pelo horário de Brasília. Um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Em um cenário no qual uma mensagem pode ser encaminhada para dezenas de pessoas em poucos segundos, a verificação se torna uma etapa importante antes do compartilhamento. Entre receber uma informação e repassá-la existe a possibilidade de conferir a fonte, a data e as evidências.
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