Não é preciso atravessar o oceano para descobrir uma caminhada de vários dias, cercada por paisagens impressionantes e histórias que fazem cada etapa valer a pena. Em Goiás, existe um roteiro que lembra, pela proposta de percorrer longas distâncias e viver a experiência do caminho, as famosas jornadas de Santiago de Compostela, na Espanha. Trata-se do Caminho de Santana, um circuito de 78 quilômetros localizado em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros.
A comparação é uma forma de traduzir a experiência, não de afirmar que os dois caminhos têm a mesma origem ou tradição religiosa. Enquanto Santiago de Compostela é um destino histórico de peregrinação, o roteiro goiano tem como protagonistas a natureza do Cerrado, a história regional e as paisagens de uma das áreas mais preservadas do Brasil.
Caminho de Santana, em Cavalcante, reúne serras, rios e paisagens do Cerrado em uma travessia de 78 quilômetros, em Goiás. | Foto: Ministério do Turismo
O Caminho de Santana começa e termina no mesmo lugar: a praça da Igreja Matriz de Sant’Ana, no centro histórico de Cavalcante. Dali, os caminhantes seguem por uma região de serras, rios, formações rochosas e áreas protegidas, em uma jornada que pode levar de quatro a oito dias.
Uma jornada de 78 quilômetros pelo coração do Cerrado
O percurso está dividido em três trechos e pode ser realizado nos dois sentidos. Ao longo do caminho, a paisagem muda entre áreas de vegetação campestre, formações florestais, serras, cânions e cursos d’água.
A rota acompanha a região da bacia do Rio das Almas e passa entre as serras das Araras e de Santana. É uma oportunidade de observar o Cerrado além das cachoeiras que normalmente aparecem nos roteiros turísticos mais conhecidos.
Caminho de Santana, em Cavalcante, reúne serras, rios e paisagens do Cerrado em uma travessia de 78 quilômetros, em Goiás. | Foto: Arthur Monteiro/Wikiloc
Segundo o cadastro da Rede Nacional de Trilhas, o circuito está relacionado a 11 áreas protegidas, incluindo o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, a Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto e diferentes reservas particulares.
Isso não significa que o caminhante entre em todas essas unidades de conservação durante a travessia. O importante é que a rota está inserida em uma região de grande relevância ambiental, onde a preservação da paisagem é parte fundamental da experiência.
O reconhecimento federal da trilha foi formalizado por meio da Portaria MMA nº 1.541, de 23 de dezembro de 2025.
O que o Caminho de Santana tem de diferente?
Quem visita a Chapada dos Veadeiros geralmente organiza a viagem em torno de cachoeiras e passeios de um dia. O Caminho de Santana propõe outra maneira de conhecer a região: caminhar durante vários dias, acompanhando as mudanças da paisagem e reservando tempo para observar os detalhes do percurso.
A experiência não se resume a chegar a uma queda d’água, tirar fotografias e voltar para a hospedagem. A própria travessia é o atrativo.
Caminho de Santana, em Cavalcante, reúne serras, rios e paisagens do Cerrado em uma travessia de 78 quilômetros, em Goiás. | Foto: Arthur Monteiro/Wikiloc
O roteiro passa por propriedades particulares, reservas ambientais e regiões com pontos de apoio, incluindo opções de camping e pousadas identificadas no cadastro especializado eTrilhas. A disponibilidade desses serviços deve ser confirmada antes da viagem.
A dimensão do circuito também permite um contato diferente com Cavalcante, município que guarda importantes capítulos da história de Goiás e integra uma região marcada pela presença da cultura quilombola Kalunga.
A história de Cavalcante faz parte da experiência
Fundada durante o ciclo do ouro, Cavalcante preserva referências históricas que ajudam a compreender a ocupação do norte goiano.
A escolha da praça da Igreja Matriz de Sant’Ana como ponto de partida e chegada estabelece uma conexão simbólica entre o roteiro e a cidade. O nome da trilha faz referência à santa que dá nome à igreja.
Paróquia Sant’Ana, onde se inicia o Caminho de Santana, em Cavalcante, em Goiás. | Foto: Diocese de Formosa
A região também abriga comunidades Kalunga, reconhecidas pela preservação de tradições, conhecimentos e modos de vida transmitidos entre gerações.
O turismo de base comunitária é uma das possibilidades de conhecer melhor esse patrimônio cultural. Entretanto, visitas a comunidades, refeições tradicionais e hospedagens familiares precisam ser organizadas com os responsáveis locais. Não se deve presumir que todas essas experiências estejam incluídas automaticamente na caminhada de 78 quilômetros.
Essa é uma diferença importante para quem deseja planejar uma viagem responsável, respeitando os moradores e as regras de acesso aos territórios.
Cachoeiras famosas podem complementar a viagem
Cavalcante abriga algumas das paisagens mais conhecidas da Chapada dos Veadeiros. Entre os atrativos da região estão a Cachoeira Santa Bárbara, famosa pelas águas azul-turquesa, a Cachoeira Capivara, a Candaru, o Complexo do Prata e a Ponte de Pedra.
Cachoeira Santa Bárbara em Cavalcante, Goiás | Foto: Guia dos Trilheiros
Esses lugares ajudam a explicar por que o município se tornou uma referência para quem busca natureza e aventura em Goiás.
Mas é preciso distinguir duas coisas: estar em Cavalcante não significa estar no traçado do Caminho de Santana. Nem todos esses atrativos fazem parte da caminhada principal.
Quem quiser incluir cachoeiras adicionais deve verificar deslocamentos, ingressos, necessidade de condutores e tempo disponível, sem contar com esses passeios como paradas garantidas do circuito.
A caminhada é difícil?
Embora a apresentação oficial da trilha descreva trechos predominantemente leves a moderados, completar 78 quilômetros exige preparo físico e organização.
O cadastro técnico da plataforma eTrilhas classifica o circuito completo como difícil, aponta sinalização parcial e indica exposição elevada ao sol e a riscos naturais.
Isso significa que a experiência não deve ser tratada como uma caminhada urbana ou um passeio improvisado.
Antes de iniciar a travessia, o visitante precisa planejar a quantidade de água, a alimentação, o peso da mochila, as paradas para descanso e os locais de pernoite. Também é importante considerar as condições climáticas, especialmente durante períodos de chuva, quando cursos d’água e terrenos podem apresentar riscos adicionais.
Para quem não conhece a região, buscar orientação de condutores locais familiarizados com o percurso é uma medida prudente.
Como planejar a viagem ao Caminho de Santana
A primeira etapa é chegar a Cavalcante, município do norte de Goiás que integra a região turística da Chapada dos Veadeiros.
O início oficial do circuito fica na praça da Igreja Matriz de Sant’Ana, no centro histórico. Como a caminhada retorna ao mesmo ponto, o visitante pode organizar a logística de chegada e saída a partir da cidade.
O roteiro completo tem 78 quilômetros, mas a duração depende do condicionamento físico, do ritmo do grupo e da organização das paradas. A documentação oficial apresenta uma janela de quatro a oito dias.
A rota passa por propriedades privadas, o que torna especialmente importante confirmar permissões de acesso, pontos de apoio e eventuais exigências de agendamento antes da partida.
Também não há uma tarifa única de visitação, hospedagem ou contratação de guia confirmada nas fontes oficiais consultadas. Por isso, qualquer orçamento deve ser feito diretamente com os prestadores locais.
Quem busca uma experiência mais curta pode consultar operadores e condutores sobre a possibilidade de realizar trechos específicos, sem presumir que todas as etapas tenham acesso independente.
Caminho de Santana: informações para visitar
Onde fica: Cavalcante, Goiás, na Chapada dos Veadeiros.
Ponto de partida e chegada: Praça da Igreja Matriz de Sant’Ana, no centro histórico de Cavalcante.
Extensão: 78 quilômetros.
Duração estimada: de quatro a oito dias.
Formato: circuito circular de caminhada, dividido em três trechos.
Dificuldade: o cadastro técnico classifica o circuito completo como difícil.
Sinalização: parcial, conforme a plataforma eTrilhas.
Hospedagem e alimentação: existem referências a pousadas, campings e pontos de apoio na região do percurso, mas é necessário confirmar disponibilidade e condições de atendimento.
Valores: não há preço único confirmado para a travessia.
Planejamento e informações técnicas: consulte o cadastro do Caminho de Santana na eTrilhas.
Referência oficial: o Ministério do Turismo apresenta as características gerais da rota e os atrativos de Cavalcante.
Vale a pena conhecer?
Para quem gosta de caminhadas de longo curso, o Caminho de Santana oferece uma proposta diferente das viagens convencionais à Chapada dos Veadeiros.
O circuito reúne natureza, história e a possibilidade de passar vários dias em contato com as paisagens do Cerrado. É uma experiência que depende de planejamento, mas que também convida o visitante a conhecer Goiás em outro ritmo.
A comparação com Santiago de Compostela ajuda a imaginar o espírito de uma jornada a pé. A identidade do Caminho de Santana, porém, é inteiramente goiana: começa em uma cidade histórica, percorre serras e rios do Cerrado e retorna ao lugar de onde partiu.
Para quem deseja continuar explorando a história e as paisagens do estado, o Curta Mais também preparou um guia para visitar seis antigas estações ferroviárias em Goiás.









