Economista explica tese de André Lara para a redução da Taxa Selic: “Juro alto é a causa do desequilíbrio fiscal”

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Em vídeo publicado em seu canal oficial no YouTube, o economista e professor José Kobori analisou a fundo a tese apresentada por André Lara Resende, doutor pelo MIT, ex-diretor do Banco Central, ex-presidente do BNDES e um dos formuladores do Plano Real, que propõe uma mudança estrutural na política monetária brasileira para viabilizar a redução sustentável da taxa Selic. Conforme a explicação de Kobori, o estudo descontrói velhos dogmas do mercado financeiro ao demonstrar que a própria manutenção dos juros em patamares elevados pela autoridade monetária é o principal gerador do desequilíbrio fiscal e do endividamento público no Brasil.

Ao detalhar os números expostos por André Lara, Kobori chamou a atenção para o montante gasto pelo setor público com o pagamento de juros: cerca de R$ 1,2 trilhão acumulados em 12 meses, o que representa mais de 17 vezes o valor do déficit primário do país. De acordo com a análise, desconsiderando a conta de juros, o orçamento público brasileiro encontra-se praticamente equilibrado. No entanto, a dívida pública saltou de 71,7% do PIB em 2022 para 82,9% em agosto de 2026, impulsionada majoritariamente pelo custo da Selic.

Kobori destacou a crítica central de Lara Resende ao Banco Central. “O Banco Central mantém os juros altos em nome de uma teoria anacrônica e esse juro é a principal causa do desequilíbrio fiscal que o próprio Banco Central diz combater.”

O economista explica que o problema se agrava porque a maior parte da dívida brasileira é constituída por títulos pós-fixados atrelados à Selic. Segundo ele, enquanto em outros países a inflação reduz o valor relativo da dívida, no Brasil o aumento da taxa de juros para conter preços expande automaticamente o estoque da dívida pública, criando um círculo vicioso em que o juro alto realimenta a própria pressão fiscal.

A proposta de corte da Selic para 7,5% ao ano

Para interromper essa espiral negativa, a proposta de André Lara Resende detalhada por Kobori estrutura uma transição gradual fundamentada em três eixos principais para reduzir a Selic com segurança:

  1. Corte gradual da Selic: reduzir a taxa básica de juros de forma cadenciada até o patamar de 7,5% ao ano no período de 12 meses.
  2. Criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional: formar um conselho encarregado de alinhar metas fiscais, de inflação e de juros para horizontes de 4 a 5 anos. Com isso, a Selic se situaria entre a meta de inflação (3%) e a taxa de crescimento nominal do PIB (em torno de 5,5%).
  3. Atuação no mercado cambial: utilizar as reservas internacionais brasileiras (hoje estimadas em US$ 370 bilhões) para neutralizar choques especulativos no dólar durante a redução da Selic.

Segundo os cálculos apresentados no vídeo, essa estratégia geraria uma economia fiscal equivalente a 4% do PIB por ano em despesas de juros. Kobori destacou a importância do debate acadêmico ser liderado por um nome histórico do liberalismo econômico. “Durante anos quem falava que o problema do Brasil é o juro era chamado de populista, de irresponsável, de terraplanista. Agora é um dos pais do Plano Real dizendo isso com os dados do próprio Banco Central”, disse.

Sustentação teórica e coordenação entre políticas

A tese de Lara Resende ganha respaldo ao conectar-se com abordagens da macroeconomia moderna, como a Teoria Fiscal do Nível de Preços associada ao economista John Cochrane, da Universidade de Stanford. O estudo aponta que, quando a inflação tem origem fiscal e a taxa de juros real supera o crescimento do PIB, elevar juros não combate a inflação, mas sim amplia o custo da dívida e realimenta os preços.

Respondendo às ponderações de analistas sobre a gestão das metas econômicas e a autonomia operacional do BC, Kobori defendeu a importância de unir a política monetária ao planejamento nacional. “Quem defende autonomia vai dizer que é interferência política. Eu digo que coordenação não é submissão, é o que qualquer país sério faz”, argumentou.

Ao encerrar a análise do vídeo, José Kobori frisou que o juro elevado desestimula o investimento produtivo, paralisa a reindustrialização do país e canaliza recursos públicos para a rentabilidade financeira sem risco. O economista resumiu o desafio de desenvolvimento do Brasil com a seguinte reflexão. “A gente segue essa cartilha há mais de 30 anos e o desenvolvimento não vem. Talvez esteja na hora de admitir que o problema não é o Brasil, é a cartilha”, pontuou.


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